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terça-feira, 6 de agosto de 2013

A maior de todas as necessidades


Durante evento em Lindau, na Alemanha, o Nobel de Física Steven Chu destacou que é preciso enfrentar a realidade das mudanças climáticas e que temos a responsabilidade de criar soluções para o problema, com base na eficiência energética e no uso de fontes renováveis de energia.

Por: Fred Furtado


Para Steven Chu, que foi secretário de energia dos Estados Unidos, há uma clara relação entre a liberação de gases de efeito estufa pela humanidade e o aquecimento global. (montagem a partir de Sxc.hu e Wikimedia Commons)


Se a necessidade é a mãe da invenção, então as mudanças climáticas são a maior de todas as necessidades. Foi essa frase que o físico norte-americano Steven Chu, laureado com o Nobel de Física de 1997 por desenvolver métodos para resfriar e capturar átomos com lasers, usou para destacar, no 63º Encontro de Prêmios Nobel em Lindau, na Alemanha, a importância do desenvolvimento de soluções para combater o aquecimento global.

Segundo Chu, que foi secretário de energia dos Estados Unidos entre 2009 e o início de 2013, as mudanças climáticas são uma realidade. Ele citou levantamentos distintos realizados pela agência espacial norte-americana (Nasa), agência meteorológica e oceanográfica norte-americana (Noaa) e Universidade de Berkeley, que revelam que a temperatura média da superfície da Terra aumentou quase 1,5 ºC nos últimos 200 anos.

O físico acrescentou que o ritmo de subida do nível do mar, que pelos últimos 2 mil anos variou entre zero e 0,02 mm anuais, atinge atualmente uma taxa de 3 mm por ano. Por outro lado, análises de elementos presentes em amostras de gelo acumuladas há 650 mil anos indicam que houve picos de temperatura – devido à maior concentração de gás carbônico na atmosfera – e aumento do nível do mar ao longo desse período.

Por exemplo, há 120 mil anos, a temperatura média era 2 ºC maior e o nível do mar estava 6,6 metros acima do atual. “Isso quer dizer que o aquecimento que estamos vivendo é parte de um ciclo natural e não temos que nos preocupar?”, questionou o físico. E alertou em seguida: “Temos que nos preocupar e muito, porque os aumentos observados agora ultrapassam a escala estabelecida nos últimos 600 mil anos. De fato, eles ultrapassam os valores dos últimos dois milhões de anos.”


O físico norte-americano Steven Chu, vencedor do Nobel de Física de 1997, foi um dos participantes do encontro que reúne nesta semana em Lindau, na Alemanha, 35 ganhadores do prêmio e 600 jovens pesquisadores de 78 nações. (foto: Fred Furtado)

Para Chu, temos que abordar a questão das mudanças climáticas por um ângulo epidemiológico, como foi feito com a associação entre fumo e câncer. “Mesmo não havendo um modelo, havia uma clara relação entre o hábito de fumar e o desenvolvimento de câncer. Ocorre o mesmo com a liberação de gases de efeito estufa pela humanidade e o aquecimento global.”


Eficiência energética

Chu apontou alternativas para combater as mudanças climáticas, como o desenvolvimento e uso de aparelhos mais eficientes do ponto de vista do consumo de energia. Ele ressaltou que as geladeiras norte-americanas hoje – embora sejam maiores que as de antigamente – gastam 22% menos energia do que em 1975, quando o governo dos Estados Unidos estabeleceu padrões de eficiência mínima.

“Elas também são mais baratas, o que pode parecer contraintuitivo; mas essa é a realidade que observamos também para as máquinas de lavar“, acrescentou o físico. “Ainda não se sabe as razões para isso, mas suspeito que tenha a ver com o fato de a indústria ter se adaptado à produção desses eletrodomésticos e ganhado eficiência no processo.”
Chu: “Já existem carros elétricos extremamente eficientes e que podem competir com veículos esportivos, mas eles custam 80 mil dólares e o que queremos é algo em torno de 20 mil dólares”

O pesquisador citou ainda o desafio EV Everywhere (algo como ‘veículos elétricos em todos os lugares’), lançado pelo Departamento de Energia dos Estados Unidos em março de 2012 e cujo objetivo é permitir que as companhias norte-americanas desenvolvam, até 2022, um carro de passeio elétrico para cinco passageiros tão barato quanto os equivalentes à gasolina.

“Já existem carros elétricos extremamente eficientes e que podem competir com veículos esportivos, mas eles custam 80 mil dólares e o que queremos é algo em torno de 20 mil dólares”, explicou o físico, acrescentando que, para isso, é necessário desenvolver baterias com maior densidade energética, durabilidade e tolerância à temperatura, além de reduzir seu custo. “Atualmente, elas custam 500 dólares por kWh, mas queremos chegar a 300 dólares por kWh em 2015 e 150 dólares por kWh em 2022”, revelou Chu.


Energia limpa

O físico também destacou a importância do uso de fontes renováveis. Ele citou o programa da Agência de Projetos de Pesquisa Avançados de Energia (Arpa-e), dos Estados Unidos, que procura criar versões melhoradas do pinheiro loblolly (Pinus taeda). Além de servir como matéria-prima para a fabricação de papel, a planta poderia gerar grandes quantidades de resina, rica em hidrocarbonetos. “Esse pinheiro já é cultivado comercialmente em 10 milhões de acres, mas tem o potencial de produzir bilhões de litros de biocombustíveis por ano em menos de 250 mil acres”, afirmou.

Reduzir o custo da energia solar é o objetivo de outro programa do Departamento de Energia norte-americano, chamado SunShot (algo como ‘tiro ao sol’). Segundo o físico, o programa tem como meta reduzir o custo atual dessa fonte energética, que inclui instalação e manutenção de um sistema eletrônico e uma placa solar, de 3,80 dólares para 1 dólar por watt. “As companhias elétricas estão nervosas com a instalação de painéis solares na casa dos consumidores e com o modelo em que elas são forçadas a comprar o excedente de energia de volta do cliente”, observou Chu. Para ele, tornar as empresas parte da solução requer criar um modelo que seja vantajoso para elas também.


Para Chu, a promoção da energia solar passa por um modelo que beneficie tanto as empresas como os usuários domésticos. (foto: Robert Linder/ Sxc.hu)

A proposta do físico é que as companhias elétricas sejam responsáveis pela instalação e manutenção do sistema – elas seriam as donas do equipamento, que contaria ainda com uma bateria instalada na casa do usuário. Esse armazenamento local é vantajoso para as empresas, porque elas não precisariam construir prédios para guardar as baterias e estas não estariam expostas a vento, chuva etc., além de servirem ainda como reservatório de segurança para o cliente em caso de blecaute.

A redução dos custos das empresas seria repassada para os usuários, que teriam uma energia mais barata. “Todos ganhariam e as companhias elétricas seriam parceiras na expansão da energia solar; é economicamente vantajoso para elas apostar nisso”, ponderou Chu. O pesquisador ressaltou a necessidade de se investir também no barateamento da transmissão de energia. “Não adianta produzir, se não há como levar a eletricidade até onde ela precisa chegar.”

O físico ressaltou que temos uma responsabilidade moral com as vítimas inocentes das mudanças climáticas: as populações pobres e aqueles que ainda estão por nascer. “Há um ditado indígena norte-americano que ilustra isso: ‘não herdamos a terra dos nossos ancestrais, nós a tomamos emprestado dos nossos filhos’”, concluiu.

Fred Furtado*
Revista Ciência Hoje

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A grande farsa do gás de xisto

Energia barata versus poluição prolongada: nos EUA, o dilema da exploração de gás e petróleo de xisto não atormentou industriais nem o poder público. Em menos de uma década, essas novas reservas recolocaram o país no crescimento, doparam o emprego e restabeleceram a competitividade. Mas e se for apenas uma bolha?

por Nafeez Mosaddeq Ahmed






Se crermos nas manchetes da imprensa norte-americana anunciando um boomeconômico graças à “revolução” do gás e do petróleo de xisto, o país logo estará se banhando em ouro negro. O relatório de 2012, “Perspectivas energéticas mundiais”, da Agência Internacional de Energia (AIE), informa que, por volta de 2017, os Estados Unidos arrebatarão da Arábia Saudita o primeiro lugar na produção mundial de petróleo e conquistarão uma “quase autossuficiência” em matéria energética. Segundo a AIE, a alta programada na produção de hidrocarbonetos, que passaria de 84 milhões de barris/dia em 2011 para 97 milhões em 2035, proviria “inteiramente dos gases naturais líquidos e dos recursos não convencionais” – sobretudo o gás e o óleo de xisto –, ao passo que a produção convencional começaria a declinar a partir de... 2013.

Extraídos por fraturamento hidráulico (injeção, sob pressão, de uma mistura de água, areia e detergentes para fraturar a rocha e deixar sair o gás), graças à técnica da perfuração horizontal (que permite confinar os poços à camada geológica desejada), esses recursos só são obtidos ao preço de uma poluição maciça do ambiente. Entretanto, sua exploração nos Estados Unidos criou várias centenas de milhares de empregos, oferecendo a vantagem de uma energia abundante e barata. Conforme o relatório de 2013, “Perspectivas energéticas: um olhar para 2040”, publicado pelo grupo ExxonMobil, os norte-americanos se tornarão exportadores líquidos de hidrocarbonetos a partir de 2025 graças aos gases de xisto, num contexto de forte crescimento da demanda mundial do produto.

Mas e se a “revolução dos gases de xisto”, longe de robustecer uma economia mundial convalescente, inflar uma bolha especulativa prestes a explodir? A fragilidade da retomada, tanto quanto as experiências recentes, deveria convidar à prudência diante de tamanho entusiasmo. A economia espanhola, por exemplo, outrora tão próspera – quarta potência da zona do euro em 2008 –, está hoje em maus lençóis depois que a bolha imobiliária, à qual ela se agarrava cegamente, explodiu sem aviso prévio. A classe política não aprendeu muita coisa com a crise de 2008 e está a ponto de repetir os mesmos erros no campo das energias fósseis.

Em junho de 2011, uma pesquisa do New York Timesjá revelava algumas fissuras no arcabouço midiático-industrial do boomdos gases de xisto, atiçando assim as dúvidas alimentadas por diversos observadores – geólogos, advogados, analistas de mercado – quanto aos efeitos da publicidade das companhias petrolíferas, suspeitas de “superestimar deliberadamente, e mesmo ilegalmente, o rendimento de suas explorações e o volume de suas jazidas”.1 “A extração do gás do xisto existente no subsolo”, escreveu o jornal, “poderia se revelar menos fácil e mais cara do que afirmam as empresas, como se vê pelas centenas de e-mails e documentos trocados pelos industriais a esse respeito, além das análises dos dados recolhidos em milhares de poços.”

No início de 2012, dois consultores norte-americanos soaram o alarme na Petroleum Review, a principal revista britânica da indústria petrolífera. Incertos quanto à “confiabilidade e durabilidade das jazidas de gás de xisto norte-americanas”, eles observam que as previsões dos industriais coincidem com as novas regras da Security and Exchange Commission (SEC), o organismo federal de controle dos mercados financeiros. Adotadas em 2009, essas regras autorizam as empresas a calcular o volume de suas reservas como bem entendam, sem precisar da verificação de uma autoridade independente.2

Para os industriais, superestimar as jazidas de gás de xisto permite pôr em segundo plano os riscos associados à sua exploração. Ora, o fraturamento hidráulico não apenas tem efeitos prejudiciais sobre o meio ambiente como coloca um problema estritamente econômico, uma vez que gera uma produção de vida muito curta. Na revista Nature, um ex-consultor científico do governo britânico, David King, esclarece que o rendimento de um poço de gás de xisto diminui de 60% a 90% após seu primeiro ano de exploração.3

Uma queda tão significativa torna evidentemente ilusório qualquer objetivo de rentabilidade. Depois que um poço se esgota, os operadores devem escavar imediatamente outros para manter seu nível de produção e pagar suas dívidas. Sendo a conjuntura favorável, essa corrida pode iludir durante alguns anos. Foi assim que, combinada com uma atividade econômica decrescente, a produção dos poços de gás de xisto – frágil a longo prazo, vigorosa por algum tempo – provocou uma baixa espetacular dos preços do gás natural nos Estados Unidos: de US$ 7 ou 8 por milhão de BTU (British Thermal Unit) para menos de US$ 3 ao longo de 2012.

Os especialistas em aplicações financeiras não se deixam enganar. “A economia do fraturamento é destrutiva”, adverte o jornalista Wolf Richter na Business Insider.4 “A extração devora o capital a uma velocidade impressionante, deixando os exploradores sobre uma montanha de dívidas quando a produção cai. Para evitar que essa diminuição engula seus lucros, as companhias devem prosseguir bombeando, compensando poços esgotados com outros que se esgotarão amanhã. Cedo ou tarde esse esquema se choca com um muro, o muro da realidade.”

Arthur Berman, um geólogo que trabalhou para a Amoco e a British Petroleum, confessa-se surpreso com o ritmo “incrivelmente acelerado” do esgotamento das jazidas. E, dando como exemplo o sítio de Eagle Ford, no Texas – “É a mãe de todos os campos de óleo de xisto” –, revela que “a queda anual da produção ultrapassa os 42%”. Para garantir resultados estáveis, os exploradores terão de perfurar “quase mil poços suplementares, todos os anos, no mesmo sítio. Ou seja, uma despesa de US$ 10 bilhões a 12 bilhões por ano... Se somarmos tudo, isso equivale ao montante investido para salvar a indústria bancária em 2008. Onde arranjarão tanto dinheiro?”.5

A bolha do gás já produziu seus primeiros efeitos sobre algumas das maiores empresas petrolíferas do planeta. Em junho último, o diretor-presidente da Exxon, Rex Tillerson, queixou-se de que a queda dos preços do gás natural nos Estados Unidos era sem dúvida uma boa notícia para os consumidores, mas uma maldição para sua companhia, vítima da diminuição drástica dos lucros. Se, diante dos acionistas, a Exxon continuava fingindo que não perdera um centavo por causa do gás, Tillerson desfiou um discurso quase lacrimoso diante do Council on Foreign Relations (CFR), um dos fóruns mais influentes do país: “Logo, logo, perderemos até as calças. Não ganhamos mais dinheiro. As contas estão no vermelho”.6

Mais ou menos na mesma ocasião, a companhia de gás britânica BG Group se via às voltas com “uma depreciação de seus ativos referentes ao gás natural norte-americano da ordem de US$ 1,3 bilhão”, sinônimo de “queda sensível em seus lucros intermediários”.7Em 1º de novembro de 2012, depois que a empresa petrolífera Royal Dutch Shell amargou três trimestres de resultados medíocres, com uma perda acumulada de 24% em um ano, o serviço de informações da Dow Jones divulgou essa notícia funesta, alarmando-se com o “prejuízo” causado ao conjunto do setor de ações pela retração do gás de xisto.

Da panaceia ao pânico

A bolha não poupa sequer a Chesapeake Energy, que, no entanto, é a pioneira na corrida aos gases de xisto. Esmagada por dívidas, a empresa norte-americana precisou vender parte de seus ativos – campos e gasodutos a um valor total de US$ 6,9 bilhões – para honrar seus compromissos com os credores. “A empresa está indo um pouco mais devagar, muito embora seu CEO a tenha transformado num dos líderes da revolução dos gases de xisto”, deplorou o Washington Post.8

Como puderam cair tanto os heróis dessa “revolução”? O analista JohnDizard observou, noFinancial Timesde 6 de maio de 2012, que os produtores de gás de xisto haviam gasto quantias “duas, três, quatro ou mesmo cinco vezes superiores aos seus fundos próprios a fim de adquirir terras, escavar poços e levar a bom termo seus projetos”. Para financiar a corrida do ouro, foi necessário pedir emprestadas somas astronômicas “em condições complexas e exigentes”, lembrando que Wall Street não se afasta nunca de suas normas de conduta habituais. Segundo Dizard, a bolha do gás deveria, porém, continuar crescendo por causa da dependência dos Estados Unidos desse recurso economicamente explosivo. “Considerando-se o rendimento efêmero dos poços de gás de xisto, as perfurações devem prosseguir. Os preços acabarão por se ajustar a um nível elevado, e mesmo muito elevado, para cobrir não apenas dívidas antigas, mas também custos de produção realistas.”

Não se descarta, contudo, que diversas companhias petrolíferas de grande porte se vejam simultaneamente na iminência da ruína financeira. Caso essa hipótese se confirme, diz Berman, “assistiremos a duas ou três falências ou operações de compra de enorme repercussão; cada qual resgatará seus papéis, os capitais se evaporarão e teremos o pior dos cenários”.

Em suma, o argumento segundo o qual os gases de xisto protegeriam os Estados Unidos ou a humanidade contra o “pico do petróleo” – nível a partir do qual a combinação das pressões geológicas e econômicas tornará a extração do produto bruto insuportavelmente difícil e onerosa – não passa de um conto de fadas. Diversos relatórios científicos independentes, divulgados há pouco, confirmam que a “revolução” do gás não trará nenhum alívio nessa área.

Num estudo publicado pela revista Energy Police, a equipe de King chegou à conclusão de que a indústria petrolífera superestimou em um terço as reservas mundiais de energia fóssil. As jazidas ainda disponíveis não excederiam 850 bilhões de barris, enquanto as estimativas oficiais falam de mais ou menos 1,3 trilhão. Segundo os autores, “imensas quantidades de recursos fósseis permanecem nas profundezas da terra, mas o volume de petróleo explorável pelas tarifas que a economia mundial tem o costume de suportar é limitado, devendo além disso diminuir a curto prazo”.9

A despeito dos tesouros em gás arrancados do subsolo por fraturamento hidráulico, a diminuição das reservas existentes prossegue num ritmo estimado entre 4,5% e 6,7% por ano. King e seus colegas repelem, pois, categoricamente a ideia de que o boomdos gases de xisto poderá resolver a crise energética. Por sua vez, o analista financeiro Gail Tverberg lembra que a produção mundial de energias fósseis convencionais não aumentou depois de 2005. Essa estagnação, na qual ele vê uma das causas principais da crise de 2008 e 2009, anunciaria um declínio suscetível de agravar ainda mais a recessão atual – com ou sem gás de xisto.10 E não é tudo: numa pesquisa publicada em conjunto com o relatório da AIE, a New Economics Foundation (NEW) prevê que o pico do petróleo será alcançado em 2014 ou 2015, quando os gastos com a extração e o abastecimento “ultrapassarão o custo que as economias mundiais podem assumir sem causar danos irreparáveis às suas atividades”.11

Submergidos pela retórica publicitária dos lobistas da energia, esses trabalhos não chamaram a atenção da mídia nem dos políticos. É lamentável, pois podemos entender perfeitamente sua conclusão: longe de restaurar a prosperidade, os gases de xisto inflam uma bolha artificial que camufla temporariamente uma profunda instabilidade estrutural. Quando ela explodir, provocará uma crise de abastecimento e um aumento de preços que talvez afetem dolorosamente a economia mundial.


Nafeez Mosaddeq Ahmed

Cientista político, é diretor do Institute for Policy Research and Development, Brighton, Reino Unido

Ilustração: Daniel Kondo

1 “Insiders sound an alarm amid a natural gas rush” [Especialistas soam um alarme em meio a uma corrida de gás natural], New York Times, 25 jun. 2011.
2 Ruud Weijermars e Crispian McCredie, “Inflating US shale gas reserves” [Inflando as reservas de gás de xisto dos EUA], Petroleum Review, Londres, jan. 2012.
3 David King e James Murray, “Climate policy: oil’s tipping point has passed” [Política climática: o ponto de inflexão do petróleo passou], Nature, Londres, n.481, 26 jan. 2012.
4 Wolf Richter, “Dirt cheap natural gas is tearing up the very industry that’s producing it” [Gás natural sujo e barato está destruindo a indústria que o produz], Business Insider, Portland, 5 jun. 2012.
5 “Shale gas will be the next bubble to pop. An interview with Arthur Berman” [O gás de xisto será a próxima bolha a estourar. Entrevista com Arthur Berman], 12 nov. 2012. Disponível em: <www.oilprice.com>.
6 “Exxon: ‘losing our shirts’ on natural gas” [“Exxon: ‘perdendo as calças’ no gás natural”], Wall Street Journal, Nova York, 27 jun. 2012.
7 “US shale gas glut cuts BG Group profits” [O excesso de gás de xisto nos EUA reduz lucros do BG Group], The Financial Times, Londres, 26 jul. 2012.
8 “Debt-plagued Chesapeake energy to sell $6,9 billion worth of its holdings” [Pressionada pela dívida de energia, a Chesapeake vende US$ 6,9 bilhões de valor de suas participações], Washington Post, 13 set. 2012.
9 Nick A. Owen, Oliver R. Inderwildi e David A. King, “The status of conventional world oil reserves – hype or cause for concern?” [O estado das reservas de petróleo convencional do mundo – publicidade exagerada ou motivo de preocupação?], Energy Policy, Guildford, v.38, n.8, ago. 2010.
10 Gail E. Tverberg, “Oil supply limits and the continuing financial crisis” [Limites do abastecimento de petróleo e a continuação da crise financeira], Energy, Stanford, v.35, n.1, jan. 2012.
11 “The economics of oil dependence: a glass ceiling to recovery” [A economia da dependência do petróleo: um teto de vidro para a recuperação], New Economics Foundation, Londres, 2012.
Le Monde Diplomatique

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Energia Sustentável limita aquecimento global

Programa das Nações Unidas pode diminuir emissões de gases estufa

WDG Photo/Shutterstock

Por Julia Pyper e ClimateWire

Negociações climáticas internacionais ficaram estagnadas em anos recentes, há pouca esperança de manter o aquecimento global abaixo de 2 graus Celsius até o fim do século. Mas o compromisso das Nações Unidas com o acesso universal à energia sustentável poderia avançar muito essa meta.

Em 2011, o Secretário Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, lançou a iniciativa “Energia Sustentável Para Todos” (SE4ALL). Os três objetivos do programa eram garantir acesso universal à energia moderna, dobrar a distribuição global de energia sustentável e dobrar a taxa de melhorias em eficiência energética até 2030.

Se todos os três objetivos fossem alcançados e sustentados, a probabilidade de manter o aumento de temperatura global abaixo de 2 graus seria maior que 66%, de acordo com estudo publicado em 25 de fevereiro no periódico Nature Climate Change.

Esses três objetivos, se cumpridos, poderiam deflagrar uma rigorosa proteção climática, de acordo com Joeri Rogelk, pesquisador da ETH de Zurique e principal autor do estudo.

Ainda que as iniciativas SE4ALL não abordem a mudança climática diretamente, o acesso à energia sustentável é uma parte fundamental da redução de emissões de gases estufa, além da erradicação da pobreza. O sistema global de energia, incluindo transportes, construções, indústrias, e a produção de eletricidade, calor e combustível, é responsável por 80% das emissões de dióxido de carbono da humanidade.

Se pelo menos o objetivo de dobrar a distribuição de energia renovável fosse atingido, a probabilidade de manter o aumento de temperatura abaixo de 2 graus ficaria entre 40 e 90% – o que não é suficiente para garantir estabilidade climática.

O terceiro objetivo, de atingir acesso universal à energia moderna, parece contradizer a redução de gases estufa por implicar a ativação de mais fontes de energiaem geral. Maspesquisadores descobriram que o acesso universal à energia teria, na verdade, um efeito insignificante sobre o clima, já que fontes de energia modernas, incluindo combustíveis fósseis, são muito mais eficientes que fontes tradicionais de energia.

Mais acesso à energia poderia trazer resultados mais limpos

“Quando falamos de acesso universal à energia em nossos artigos, estamos falando de aproximadamente três bilhões de pessoas no mundo em desenvolvimento (principalmente no Sul da Ásia, na África Subsaariana, e no Sudeste Asiático), que não têm qualquer acesso à eletricidade e/ou que ainda queimam lenha, carvão ou esterco diariamente para cozinhar seus alimentos e aquecer suas casas”, escreveu David McCollum, pesquisador do Instituto Internacional para Análise Aplicada de Sistemas, por e-mail.

“Esses últimos processos são tão incrivelmente ineficientes que se pessoas puderem receber acesso a dispositivos modernos de cozinha e aquecimento (mesmo os movidos a combustíveis fósseis, como querosene ou fornos a gás liquefeito de petróleo), que são muito mais eficientes, o efeito total sobre emissões de gases estufa será, no fim das contas, bastante marginal”, declarou ele.

Alcançar o acesso de todos à energia moderna pode na verdade complementar o objetivo de dobrar a eficiência energética ao atualizar o sistema energético geral.

Mas apenas os objetivos do SE4ALL não garantirão que metas climáticas de longo prazo sejam atingidas sem a utilização de outras medidas para deter as emissões de gases estufa, escreveram os autores. Essas medidas poderiam incluir acordos vinculantes globais, nacionais ou regionais, para limitar o dióxido de carbono através de uma taxa ou de um programa “cap and trade”. [mecanismo para definir limite de emissão e negociação/comercialização de créditos de emissão]

“O Energia Sustentável Para Todos é um programa ascendente com efeitos predominantemente locais”, observou Rogelk. “Deveria existir uma solução global que realmente limitasse os gases estufa”.

Pelo menos nesse ínterim, porém, os objetivos do SE4ALL podem ter uma melhor chance de sucesso. Os autores calcularam que o custo para atingir todos os objetivos do SE4ALL poderia chegar a um aumento de 0,1 a 0,7% em investimentos energéticos do produto interno bruto além do cenário inicial – uma quantidade razoável. Espera-se que investimentos iniciais em energia, sem contar quaisquer objetivos energéticos ou climáticos, cheguem a US$ 1,360 bilhão em 2030.

O maior obstáculo para completar a iniciativa de energia sustentável das Nações Unidas é a resistência a mudanças impregnada nos aspectos políticos, sociais e tecnológicos do sistema de energia, lembrou McCollum. 

“Os obstáculos a tecnologias de energia limpa são muitos, e essa indústria ainda está em um estado incipiente, pelo menos se comparada à indústria de combustíveis fósseis, que é madura, grande, e poderosa”, observou ele. “Considere o seguinte: subsídios globais a combustíveis fósseis atualmente chegam a US$ 400 bilhões anuais. Essa quantidade de dinheiro, de acordo com nossos cálculos, poderia avançar muito os objetivos do SE4ALL”.

Republicado de Climatewire com permissão de Environment & Energy Publishing, LLC.www.eenews.net, 202-628-650
Scientific American Brasil