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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Os bastidores do crack

Pesquisa busca dados aprofundados sobre o comportamento dos usuários de crack no Rio de Janeiro e em Salvador. A ideia é que os resultados contribuam com ações governamentais junto a esse grupo.

Por: Déborah Araujo


Estudo ouviu, entre novembro de 2010 e junho de 2011, 81 usuários de crack da cidade do Rio de Janeiro e 79 de Salvador, todos na faixa etária entre 18 e 24 anos. (foto: Marcos Gomes/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

A maioria dos estudos sobre o crack sugere que o uso da substância é prevalente entre jovens marginalizados, com graves problemas de saúde e envolvimento com o crime, e suas informações param por aí. Em busca de dados mais aprofundados, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) avaliaram recentemente o comportamento de 160 usuários regulares de crack na capital fluminense e em Salvador.

Além das características já conhecidas, o estudo identificou outras: usuários de crack nas duas cidades tendem a fazer uso de outras drogas e mantêm comportamento de risco para doenças sexualmente transmissíveis e transmitidas pelo sangue. “As taxas encontradas foram ainda mais altas do que supúnhamos”, declara o psiquiatra Marcelo Santos Cruz, professor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e coordenador do estudo. “Além disso, a não utilização do preservativo, a alta frequência de relações sexuais, o grande número de parceiros diferentes e a troca de sexo por droga, comportamentos comuns entre os usuários, são muito preocupantes.”
Usuários de crack nas duas cidades tendem a fazer uso de outras drogas e mantêm comportamento de risco para doenças sexualmente transmissíveis

A pesquisa também aponta que 42% e 70% dos usuários, respectivamente, do Rio e de Salvador, têm algum tipo de trabalho, legal ou ilegal, portanto, recebem algum tipo de remuneração. A prostituição é uma forma de se obter dinheiro para o consumo para 17% do grupo de usuários de crack da capital fluminense e para 8% dos voluntários da capital baiana. Além disso, 56% dos usuários de Salvador já haviam sido detidos pela polícia, contra 28% dos usuários do Rio.

O estudo buscou identificar ainda o modo como o crack é consumido. Os recipientes plásticos são os preferidos dos usuários do município do Rio (87%) para fumar a pedra de crack, já os de Salvador preferem fumar a substância misturada aos cigarros de maconha (34%) ou ao cigarro comum (10%). 


Entrevistas e exames

Além da equipe liderada pelo psiquiatra Marcelo Santos Cruz, da UFRJ, o estudo também envolveu pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da Universidade Simon Fraser e do Centro de Dependência e Saúde Mental – as duas últimas do Canadá.

Foram avaliados, entre novembro de 2010 e junho de 2011, 81 usuários de crack da cidade do Rio de Janeiro e 79 de Salvador, todos na faixa etária entre 18 e 24 anos. As duas cidades foram escolhidas para a pesquisa por terem equipes com mais experiência e maior acesso aos usuários que vivem nas ruas. “Usamos os contatos com pessoas da comunidade que as equipes já conheciam para convidar usuários de crack para as entrevistas”, explica Cruz.

As entrevistas foram feitas a partir de um questionário com seis partes: informações sócio-demográficas (sexo, idade, moradia, escolaridade, fontes de renda, entre outras); padrão do uso de drogas, incluindo padrão de uso de crack; comportamento de risco para doenças sexualmente transmissíveis; autoavaliação da saúde mental e física; utilização de serviços sociais e de saúde; e problemas com a polícia.

Os pesquisadores também realizaram testes sorológicos para os vírus da hepatite B (HBV) e C (HCV) e da Aids (HIV). Os exames revelaram que 3,7% dos voluntários do Rio de Janeiro e 11,2% dos de Salvador são portadores do HIV. Cinco participantes do Rio de Janeiro estão contaminados pelo vírus HBV e apenas um de Salvador teve resultado positivo para o HCV. “O fato de termos encontrado baixas taxas de contaminação por HIV (no Rio) e pelos vírus das hepatites B e C (nas duas cidades) mostra uma janela de oportunidade de ações preventivas”, acrescenta o psiquiatra.


Ações preventivas

Os dados coletados no estudo visam contribuir para os trabalhos de intervenção do governo federal junto a usuários de crack. “É importante mapear a rede de serviços públicos oferecida a pessoas com problemas com drogas em cada área para melhorar o encaminhamento e articulação dos mesmos”, ressalta Cruz.


Unidade de consultório de rua para dependentes químicos na cidade do Recife (PE). Pesquisa visa contribuir para ações governamentais de intervenção junto a usuários de crack. (foto: Erasmo Salomão, ASCOM/MS/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Entre os projetos em andamento, o pesquisador destaca os Consultórios na Rua de Salvador, que desde o fim da década de 1990 atendem principalmente crianças e adolescentes usuários de álcool e drogas. “São ações sociais e de saúde que incluem atividades de prevenção, encaminhamento para a rede e, em alguns casos, até tratamento realizado nos locais onde as pessoas estão”, completa.

Cruz é crítico ao projeto de lei que autoriza a internação involuntária de dependentes de drogas, em votação no congresso. Para ele, esse tipo de internação só deve ser feito nos casos em que o médico, após examinar a pessoa individualmente, percebe que ela coloca a sua vida ou a de outras em risco. “São situações muito diferentes quando você define a internação involuntária para cada indivíduo e quando você define para grupos.”

Além disso, o pesquisador acredita que a internação por si só não garante nada além de retirar o individuo imediatamente da situação em que se encontra. “Tem que haver condições de tratamento adequadas para essas pessoas, o que não é o caso de muitos serviços de internação em atividade hoje”, completa. 

Déborah Araujo
Revista Ciência Hoje

terça-feira, 30 de julho de 2013

O câncer e a última cruzada

Ganhador do prêmio Pulitzer de 2011, livro conta histórias impactantes da doença e das pessoas que ajudaram a jogar luz sobre uma das mais longas guerras da ciência médica.

Por: Marcelo Garcia



Com relatos esparsos, pouco conclusivos e de invariável pessimismo, o câncer se escondeu no silêncio e nas sombras desde a Antiguidade, até ser arrastado para a luz dos holofotes da mídia e da ciência no século 20. (foto: Futurilla/Flicrk – CC BY 2.0)


Milhares de biografias reunidas em mais de 600 páginas. Algumas breves, resumidas a poucas linhas. Outras servem de fio condutor para toda a narrativa. Juntas, formam um caleidoscópio de personalidades, sonhos, frustrações, pequenas e grandes derrotas e vitórias para descrever dois lados de uma única e poderosa história: a biografia da doença mais desafiadora que o homem já enfrentou e a cruzada moderna da humanidade para superá-la.
A obra nos leva às ‘origens’ do biografado, apresenta seus ‘feitos’ e obstinados antagonistas. A única ‘falha’ é não terminar com um ‘ponto final’

O Imperador de todos os males: uma biografia do câncer é, em certo sentido, a essência do gênero biográfico. Leva-nos às ‘origens’ do biografado, conta seus ‘feitos’, apresenta seus obstinados antagonistas e até desperta um certo fascínio inquietante por sua ‘personalidade’. A única ‘falha’ é não terminar com um 'ponto final' – claro que não por culpa do autor, o médico indiano naturalizado norte-americano Siddhartha Mukherjee.

Vencedora do prêmio Pulitzer em 2011, a obra é um trabalho jornalístico de pesquisa impressionante. Com uma linguagem simples e envolvente, a narrativa combina suspense, drama e até intriga política ao entrelaçar a experiência pessoal do autor e uma farta coleção de referências históricas e científicas. O ritmo do relato acompanha o ir e vir da pesquisa, ao explorar alternativas paralelas, recuperar histórias e estudos esquecidos no tempo – e até refletir certa estagnação pontual, como na quimioterapia do fim da década de 1980.

Apesar de pintar um quadro forte das vidas impactadas pelo câncer, a obra passa longe do clima sinistro que se poderia esperar e tem o mérito adicional de apresentar, de forma clara, conceitos científicos complexos. De processos intracelulares e genéticos até metodologias de testes clínicos, Mukherjee cria um manual das estratégias de guerra contra a doença, para leigos e iniciados, de dar inveja a Sun Tzu.

Luz e sombra

A história começa na infância do biografado: o indiano busca nas memórias do homem os primeiros vestígios do câncer. Papiros egípcios, estudos gregos sobre a bile negra, a desesperança de um médico do Império Romano, esqueletos em tumbas ameríndias e cadáveres do Renascimento, limpadores de chaminés, descobertas deuma polonesa na França, gás mostarda e fábricas de corantes alemãs – são algumas das pistas do passado de uma doença ‘fantasma’ e pouco registrada.


Emergimos desse mergulho milenar para destrinchar a história da anatomia, da química, da biologia e da medicina do câncer nos dois últimos séculos, seguindo os passos – e as intrigas – da nata da pesquisa na área. É impressionante notar como, até a metade do século 20, essa era uma guerra de cegos: ora descritos como geniais, ousados e infatigáveis, ora como compulsivos e obcecados, tateavam na penumbra à procura de uma ‘bala mágica’ capaz de destruir o câncer.

Com um entendimento perigosamente parco dos mecanismos da doença, muitas das primeiras estratégias utilizadas, como a mastectomia radical e primitivas alternativas de quimioterapia, forçavam os limites do conhecimento e da ética de sua época, por vezes com efeitos quase tão devastadores quanto o próprio câncer.

Pesquisadores que se dedicavam a estudar a biologia da doença e seu tratamento passaram décadas trabalhando de forma isolada; eram como ‘conhecidos’ que frequentam os mesmos lugares, mas voltam para casa sempre sozinhos – a analogia é do próprio Mukherjee e reflete uma realidade que só começou a mudar na década de 1980, com o avanço da genética e o desenvolvimento de terapias mais específicas e menos agressivas.

Uma jogada sagaz transformou o menino Einar Gustafson em Jimmy, garoto-propaganda da luta contra o câncer, e ajudou a colocar a doença na pauta política e social dos EUA. À direita, propaganda dos anos 1960, quando a pressão social sobre as empresas tabagistas era fomentada pelos lobistas anticâncer. (imagens: reprodução)

Outro ponto interessante é observar que as bancadas dos laboratórios são apenas uma das trincheiras dessa guerra. Na verdade, muitos dos grandes avanços só ocorreram quando a doença foi retirada das sombras à força, trabalhada na casamata do lobby político e exposta aos holofotes da mídia, transformando-se, só assim, no grande inimigo de uma cruzada moderna e definitiva.
Muitos dos grandes avanços só ocorreram quando a doença foi transformada no grande inimigo de uma cruzada moderna e definitiva

Mukherjee é um admirador do brilhantismo dos muitos ‘generais’ da frente anticâncer, como o patologista Sidney Farber e a socialitee lobista Mary Lasker, cujos esforços conjuntos colocaram a doença na pauta de discussão dos Estados Unidos.

Por outro lado, o livro também exalta a grandeza do biografado: poderoso, antigo e misterioso, o câncer é uma célula humanaque leva às últimas consequências suas estratégias de sobrevivência – e cada pequena vitória sobre ele deve ser comemorada. Em síntese, O imperador de todos os males é uma obra rica, interessante e que desempenha seu papel nesse confronto milenar ao discutir abertamente e ajudar a desmistificar o câncer.

A trincheira brasileira

Era esperado, mas não deixa de ser curioso notar a pequena participação de coadjuvantes que não sejam norte-americanos ou europeus na obra – exceção feita a alguns pesquisadores de países asiáticos, muitos deles radicados nos Estados Unidos como o próprio autor.

É conhecido o pioneirismo dessas regiões no estudo do câncer e os Estados Unidos foram os primeiros a investir pesadamente no combate à doença, mas a ausência de brasileiros e latino-americanos é marcante.

O Brasil aparece apenas uma vez, em observações de um perspicaz oculista do século 19 sobre um câncer de córnea hereditário. Teria mesmo a pesquisa ao sul do Equador tão pouca relevância mundial? 

O imperador de todos os males: uma biografia do câncer
Siddhartha Mukherjee
São Paulo, 2012, Companhia das Letras

Marcelo Garcia
Revista Ciência Hoje