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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Os novos caçadores de micróbios

Novas tecnologias permitem que cientistas ganhem um controle muito maior de surtos e epidemias

The New York Times 

The New York Times

David Relman, de Stanford, pesquisa os micróbios que vivem dentro do corpo humanoEra uma noite de terça-feira, 7 de junho. Um surto assustador de bactérias transmitidas por alimentos estava matando dezenas de pessoas na Alemanha e adoecendo centenas. E os cinco médicos jantando no Da Marco Cucina e Vino, um restaurante em Houston, não conseguiam parar de falar nisso.

O que fariam se algo do gênero acontecesse em Houston? Suponha que um paciente chegasse, morrendo de uma infecção que progredia rapidamente e tivesse origem desconhecida? Como eles poderiam descobrir a causa e impedir uma epidemia? Eles conversaram durante horas, finalmente concordando com uma estratégia.

Naquela noite, um dos médicos, James M. Musser, chefe de patologia e medicina genômica do Methodist Hospital System, teve notícias de uma residente preocupada. Um paciente havia acabado de morrer de uma possível inalação de antraz. O que ela deveria fazer? “Eu sei exatamente o que fazer”, Musser respondeu. “Acabamos de passar três horas falando disso”.

As perguntas eram: foi antraz? Se sim, era uma cepa geneticamente modificada para o bioterrorismo ou uma que normalmente vive no solo? Qual sua periculosidade? Musser sabia que as respostas poderiam vir rapidamente com a tecnologia que permitiria aos investigadores determinarem a sequência completa do genoma do micro-organismo suspeito.

Segundo sustentam Musser e outros, é o começo de uma era na microbiologia. E o tipo de epidemiologia molecular que ele e os colegas desejariam fazer é somente uma parte pequena dela. Novos métodos para o sequenciamento rápido de genomas microbiais completos estão revolucionando o campo.

O primeiro genoma bacteriano foi sequenciado em 1995 – um triunfo à época, que exigiu 13 meses de trabalho. Hoje em dia, os pesquisadores podem sequenciar o DNA que compõe o genoma de um micro-organismo em poucos dias ou, usando os equipamentos mais recentes, num dia. (Já analisá-lo demora mais.) Eles podem, ao mesmo tempo, tirar sequências de todos os micróbios de um dente, da saliva ou de uma amostra de esgoto. E o custo caiu de US$ 1 milhão para cerca de US$ 1.000 por genoma.

Numa entrevista recente, o Dr. David A. Relman, professor de medicina, microbiologia e imunologia em Stanford, escreveu que os pesquisadores haviam publicado 1.554 sequências completas de genomas bacterianos e estavam trabalhando em 4.800 mais. Eles têm sequências de 2.675 espécies de vírus e, dentro delas, sequências de dezenas de milhares de cepas – 40 mil cepas de vírus da gripe, mais de 300 mil cepas de HIV, por exemplo.

Com o rápido sequenciamento do genoma, “somos capazes de olhar o diagrama de um micróbio”, Relman declarou durante entrevista telefônica. É “como receber o manual operacional do carro depois de se tentar resolver um problema durante um tempo”.

Matthew K. Waldor, da Escola de Medicina de Harvard, afirmou que a nova tecnologia “está mudando todos os aspectos da microbiologia – é uma coisa transformadora”.

Um grupo está começando a desenvolver o que chama de mapas meteorológicos de doenças. A ideia é pegar amostras de usinas de tratamento de esgoto ou lugares como metrô ou hospitais e sequenciar rapidamente os genomas de todos os micro-organismos. Isso mostrará exatamente que bactérias e vírus estão presentes e qual sua prevalência.

Com essas ferramentas, os investigadores podem criar uma espécie de mapa meteorológico de padrões de enfermidades. E podem adotar medidas de prevenção contra as que estão começando a surgir – gripe, doenças transmitidas por alimentos ou SARS, por exemplo, ou bactérias resistentes a antibióticos num hospital.

Outras pessoas estão sequenciando genomas para descobrir onde as doenças tiveram origem. Para estudar a peste negra, que varreu a Europa no século 14, os pesquisadores compararam genomas da bactéria de peste bubônica de hoje em dia, que variam levemente de país para país. Trabalhando de forma retroativa, eles conseguiram criar uma árvore genealógica que colocou a origem do micróbio na China, entre 2.600 e 2.800 anos atrás.

Um terceiro grupo de pessoas, incluindo Relman, está examinando o vasto mar de micro-organismos que vivem pacificamente sobre e dentro do corpo humano.

Ele descobriu, por exemplo, que as bactérias na saliva são diferentes das dos dentes e as de um único dente não são iguais às bactérias de um dente adjacente. Segundo os pesquisadores, as bactérias da boca oferecem pistas para a cárie dentária e doenças gengivais, duas das infecções humanas mais comuns.

Um teste prático 
Para Musser e seus colegas, o teste prático do que poderiam fazer surgiu naquela noite de junho.

O paciente era um homem de 39 anos que morava a cerca de 120 quilômetros de Houston, numa área relativamente rural. Ele estava soldando em casa quando, repentinamente, não conseguiu mais respirar. Ele começou a tossir sangue e a vomitar. O homem sentia dor na cabeça, na parte superior do abdome e no peito.

No pronto-socorro, a pressão sanguínea estava perigosamente baixa e o coração batia acelerado. Os médicos deram a ele antibiótico intravenoso e o levaram correndo para o Hospital Metodista, em Houston. Ele chegou na noite de sábado, 4 de junho. Apesar dos esforços heroicos, o paciente faleceu dois dias e meio depois, na manhã de terça-feira.

Agora era terça à noite. Segundo a autópsia, todos achavam que a causa parecia ser antraz, na mesma forma incomum – a chamada inalação de antraz – que apavorou a nação em 2001. Mesmo antes da morte do homem, os pesquisadores tinham suspeitas porque os resíduos pulmonares estavam cheios de bactérias em formato de bastonete, uma característica do antraz. Os investigadores reproduziram a bactéria no laboratório, percebendo que as colônias pareciam pilhas de vidro fosco, típicas do antraz, mas também de outros micróbios do gênero Bacillus.

“Sabíamos que tínhamos de resolver aquilo correndo. Era preciso saber com toda certeza com o que estávamos lidando. Foi nessa hora que colocamos em ação um plano para sequenciar o genoma”, contou Musser.

Poucos dias depois encontraram a resposta. A bactéria não era antraz, mas estava intimamente relacionada. Eram de uma cepa diferente de Bacillus: cereus em vez de anthracis.

As bactérias tinham vários genes em comum com os da toxina do antraz, mas continham somente um dos quatro vírus que habitam a bactéria do antraz e contribuem para sua toxicidade. E faltavam nelas um cromossomo miniatura – um plasmídeo – encontrado na bactéria do antraz que também conta com genes de toxina.

A conclusão foi de que a bactéria letal estava ocorrendo de forma natural e, embora fosse intimamente relacionada ao antraz, não era igualmente perigosa.

Então por que esse homem ficou tão doente? Segundo Musser, ele era soldador e os soldadores são singularmente suscetíveis a infecções pulmonares, talvez porque seus pulmões são cronicamente irritados por partículas metálicas finas. Assim, sua doença fatal provavelmente se devia a uma confluência de eventos: soldagem, morar numa área rural onde a bactéria vivia no solo e inspirar a toxina contendo espécies de bactéria.

Waldor e seus colegas fizeram uma pergunta pouca coisa diferente quando o Haiti foi varrido pelo cólera depois do terremoto do ano passado. O cólera não era visto no país há mais de um século. Por que essa epidemia repentina? Rapidamente, os cientistas sequenciaram o genoma da bactéria haitiana e o compararam com cepas de cólera conhecidas do mundo inteiro. No fim das contas, a cepa haitiana era diferente da bactéria da cólera na América Latina e África, mas idêntica à do sul asiático.

Assim os pesquisadores concluíram que o terremoto fora indiretamente responsável pela epidemia. Muitos voluntários que foram ao Haiti moravam no sul da Ásia, onde o cólera era endêmico.

“Provavelmente, um ou mais desses indivíduos levaram o cólera para o Haiti”, disse Waldor.

A cartografia dos mapas de doenças Um dos colaboradores de Waldor naquele estudo, Eric Schadt, quer dar um passo além com a ideia da ciência molecular forense. Schadt, chefe de genética da Escola de Medicina Mount Sinai e diretor-chefe científico da Pacific Biosciences, quer fazer mapas meteorológicos de doenças.

Ele começou com estudos-piloto, primeiro nos escritórios de sua empresa.

Durante vários meses, ela analisou os genomas dos micróbios nas superfícies, como escrivaninhas, computadores e no botão de descarga das privadas. À medida que a temporada de gripe começava, as superfícies passaram a conter mais e mais da cepa da gripe predominante até que, no auge da temporada de gripe, toda superfície tinha os vírus da gripe. A superfície mais contaminada? Os botões de controle dos projetores nas salas de reunião.

“Todo mundo toca neles, que nunca são limpos”, disse Schadt.

Ele também tirou amostras da própria casa e descobriu, para seu desalento, que a alça da geladeira sempre estava contaminada com micróbios que vivem em aves e suínos. Ele percebeu que o motivo se devia ao fato de as pessoas tirarem frios da geladeira, fazerem sanduíches e depois abrirem a porta do refrigerador para guardar os frios sem antes lavar as mãos. “Tenho lavado minhas mãos muito mais agora”, Schadt afirmou.

Segundo ele, o estudo-piloto mais interessante foi a análise do esgoto. ``Se você quiser fazer a pesquisa mais ampla possível, o esgoto é formidável.

Todos contribuem com ele todos os dias’'.

Para sua surpresa, ele viu não apenas micróbios causadores de doenças como também os que vivem em comidas específicas, como frango, pimenta ou tomate.

“Eu falei: 'Uau, até parece epidemiologia da saúde pública’. Poderíamos começar a avaliar a composição da dieta de uma região e correlacioná-la com a saúde”, disse Schadt.

Relman, por sua vez, está se concentrando na vasta massa de micróbios que vivem pacificamente dentro ou sobre o corpo humano. De acordo com ele, existem muitos mais genes bacterianos que vivem sem causar problema dentro de nós do que genes humanos. Um estudo que examinou amostras de fezes de 124 europeus saudáveis encontrou uma média de 536.122 genes únicos em cada amostra, e 99,1 por cento eram de bactérias.

Os genes bacterianos ajudam com a digestão, às vezes de formas inesperadas.

Um estudo recente descobriu que bactérias no intestino de muitos japoneses, mas não nos norte-americanos testados como controle, têm um gene de uma enzima para quebrar um tipo de alga usada para embalar sushi. A bactéria intestinal aparentemente pegava o gene de bactérias marinhas que vivem nesta alga vermelha no mar.

Porém, se essas vastas comunidades de micróbios são tão importantes quanto os pesquisadores pensam que são para manter a saúde, questiona Relman, o que acontece quando as pessoas tomam antibióticos? As comunidades microbianas que estavam no intestino se recuperam? Usando o sequenciamento rápido do genoma de todos os micróbios nas amostras fecais, ele constatou que elas voltavam, mas que a comunidade microbiana não era exatamente igual como antes de ser perturbada por antibióticos. E se uma pessoa toma o mesmo antibiótico uma segunda vez, até seis meses depois da primeira dose, os micróbios demoram mais para voltar e comunidade fica ainda mais avariada.

Agora ele e os colegas estão examinando bebês, pegando amostras de pele, saliva e dentes, no nascimento e durante os dois primeiros anos de vida, uma época em que a estrutura das comunidades microbianas no corpo está sendo estabelecida.

“Nós esperamos os bebês se exporem aos antibióticos – não demora muito”, afirmou Relman.
Segundo ele, o objetivo é avaliar os efeitos dos micróbios nos bebês, principalmente quando recebem doses repetidas de antibióticos que não são verdadeiramente necessárias.

“Tudo tem um custo. O problema é encontrar o equilíbrio certo. Como clínicos, nós não temos olhado o custo à saúde de nossos ecossistemas microbianos”.

Mamíferos carregam 320 mil vírus desconhecidos, diz estudo

Cientistas defendem mapeamento de organismos em projeto de R$ 14 bi para evitar pandemias

AP
Mamíferos como o morcego são portadores de milhares de vírus ainda não conhecidos pela ciência

Um estudo americano sugere que pelo menos 320 mil vírus ainda não conhecidos podem estar circulando entre animais mamíferos.

Os pesquisadores afirmam que identificar estes vírus pode ajudar a prevenir o surgimento de eventuais pandemias - contaminações em escala continental ou até mundial.

O estudo ainda estima o custo da análise e classificação de todos estes organismos em cerca de US$ 6 bilhões, o equivalente a R$ 14 bilhões.

Esse valor, segundo os pesquisadores, seria apenas uma fração do custo do trato com contaminações pandêmicas.

Estudo 
A pesquisa foi divulgada na publicação científica mBio, mantido pela Associação Americana de Microbiologia.

O diretor do Centro para Infecções e Imunidade da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, Ian Lipkin , que participou da pesquisa, ressaltou o alcance que o estudo pode ter. 

"O que nós realmente estamos falando aqui é sobre a definição de um amplo espectro de diversidade de vírus entre mamíferos. Nosso objetivo é adquirir mais informações para entender os princípios básicos que determinam os riscos (desses vírus)", explica Lipkin.

'Raposa voadora' 
Quase 70% dos vírus que infectam humanos, como o do HIV, do Ebola e o da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers, na sigla em inglês) - este último descoberto recentemente - se originaram na vida selvagem.

Mas até hoje tem sido difícil avaliar a escala da possível ameaça de outros vírus existentes na natureza.

Para investigar a questão, pesquisadores nos Estados Unidos e em Bangladesh se voltaram para uma espécie de morcego chamado de raposa-voadora.

Este animal é o portador de um vírus chamado Nipah, que pode ser fatal em humanos. 

Ao estudar 1.897 amostras sanguíneas dos morcegos, os cientistas foram capazes de levantar a quantidade de agentes patógenos - qualquer micro-organismo capaz de produzir uma doença - nestes animais.

Eles descobriram cerca de 60 tipos diferentes de vírus, a maioria destes desconhecidos até então.

Usando esse dado como base, a equipe fez uma projeção e chegou à cifra de 320 mil vírus ainda não detectados pela ciência.

Para os cientistas, a identificação desses vírus pode ser um importante passo à frente dos perigos de possíveis contaminações em massa entre humanos.

Identificar todos estes novos vírus poderia ter um custo equivalente a R$ 14 bilhões (US$ 6 bilhões).

"Obviamente, nós não podemos estudar cada animal existente no planeta, mas podemos tentar mapear (o problema) o melhor que pudermos, utilizando o conceito de áreas de prevalência. Assim, nós investigaríamos áreas que conhecemos, baseados em experiências anteriores, em que haja alta possibilidade do surgimento de novos agentes infecciosos que poderiam representar um risco à saúde humana", explica Lipkin.

Ele disse que isso levaria 10 anos e que o empreendimento, apesar do custo de bilhões de dólares, ainda seria mais barato do que lidar com situações pandêmicas.

"Ainda que pareça um gasto extraordinário, o valor é mínimo se levarmos em conta o que se pode aprender para possibilitar uma ação rápida de reconhecimento (de riscos) e intervenção que pudesse se adiantar à uma pandemia. A ideia seria desenvolver um sistema de alerta antecipado".

Descobertas 
Um projeto relacionado à pesquisa americana, chamado Predict (Previsão), descobriu até agora 240 novos vírus em regiões do mundo onde pessoas vivem em contato próximo com animais.

Comentando o estudo americano, o professor Jonathan Ball, da Unviersidade de Nottingham, na Inglaterra, disse que "os autores focaram em morcegos, porque eles foram a fonte de diversos vírus que se espalharam entre humanos".

"Mas nós devemos nos lembrar que os morcegos adotam um modo de vida que é particularmente facilitador para os vírus (se espalharem). Eles (os morcegos) vivem em grandes comunidades que se espalham por todo o mundo por voarem longas distâncias", afirma Ball.

"Ainda que outros mamíferos carreguem ou não um grupo similar de vírus, é importante fazermos a pergunta para a qual, sem dúvida, os pesquisadores se atentam: será que estudos de grande escala como estes realmente nos ajudaram a prever ou controlar melhor futuras contaminações por vírus?".

Ele ainda ressalta o tamanho do desafio: "o número de depositários de vírus é gigantesco - existem mais de mil espécies apenas de morcegos - e o rastreamento adequado desses e de outros animais impõe um grande desafio, para dizer o mínimo".

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terça-feira, 30 de julho de 2013

Quem tem medo da radioatividade?

Como herança da destruição causada pela explosão das bombas atômicas ao fim da Segunda Guerra, a energia nuclear ganhou uma reputação difícil de mudar. Um novo livro desmistifica a radioatividade e aponta as vantagens e desvantagens de seu uso.

Por: Bruna Ventura


Embora a radioatividade esteja associada a bombas atômicas e acidentes nucleares no imaginário de muitos, ela está por trás de inúmeras aplicações benéficas, como a radioterapia (foto: Dina-Roberts Wakulczyk / CC 2.0 BY).


Foram mais de cem mil mortos imediatamente após a explosão das bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. Noventa por cento deles eram civis. Era o fim da Segunda Guerra Mundial, mas o sofrimento de milhares de pessoas não terminaria em 1945. Gerações depois, as sequelas da radioatividade ainda eram sentidas, como mostram os altos índices de câncer de mama nas meninas nascidas em Hiroshima no pós-guerra.

De uma hora para outra, toda indústria bélica ficou obsoleta, já que a tecnologia de apenas uma bomba poderia destruir uma cidade inteira em minutos.

Ironicamente, as mesmas propriedades do átomo capazes de causar tamanha destruição também podiam salvar vidas se empregadas no tratamento de câncer. A radioterapia, o exame de raios-X e o marca-passo artificial são exemplos de aplicações pacíficas da radioatividade. Para muitos, no entanto, a função da energia nuclear se resume a dizimar vidas.


O temor suscitado pelos cogumelos atômicos se espalhou pelo mundo e ecoa até hoje devido à falta de informações precisas sobre o tema. Para desmistificar essa imagem reducionista e ameaçadora, dois professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) acabam de lançar o livro Perdendo o medo da radioatividade.

No livro, o físico Felipe Damásio e a química Aline Tavares resgatam a história de como o homem explorou o interior do átomo a partir do final do século 19, quando foram descobertos os raios-X, pelo alemão Wilhelm Röntgen, e a radioatividade, pelo francês Antoine Henri Becquerel e pelo casal Pierre e Marie Curie (esta última de origem polonesa).

A obra é fruto de um debate sobre os benefícios e perigos da tecnologia nuclear durante as aulas dadas por eles no Instituto de Física da UFRGS. Durante esses debates, os autores perceberam que muito se falava, mas pouco se sabia sobre o tema e resolveram aprofundá-lo. 


Vilã ou heroína?

A partir dos trabalhos pioneiros do fim do século 19, o livro mostra a evolução do conhecimento científico sobre o interior do átomo, passando pelos trabalhos de Albert Einstein, duas guerras mundiais e a corrida armamentista da Guerra Fria na década de 1960.
O risco de acidentes e a destinação do lixo nuclear são tratados de forma esclarecedora

Ao destacar as aplicações da tecnologia nuclear na medicina molecular, na agricultura, na indústria e na datação de artefatos na arqueologia, os autores mostram que rotulá-la como vilã ou heroína da história depende do ponto de vista a partir do qual se quer enxergá-la.

A obra também aborda a polêmica que ainda envolve a geração de energia nas usinas nucleares como alternativa à queima de combustíveis fósseis das usinas termelétricas de gás e carvão e ao impacto socioambiental das hidrelétricas. Os fantasmas associados às usinas nucleares – o risco de acidentes e a destinação do lixo nuclear – são tratados de forma esclarecedora pelos autores.

O vocabulário do livro é simples, o que faz com que o texto possa ser apreciado mesmo por quem não está familiarizado com o tema. Vale destacar também que as fórmulas matemáticas foram deixadas de lado, para que pessoas sem formação específica em física ou matemática possam formar uma opinião crítica e criteriosa sobre a energia nuclear.

Perdendo o medo da radioatividade
Felipe Damasio e Aline Tavares (ilustrações: Lor)
Campinas, 2010, Autores Associados

Bruna Ventura
Revista Ciência Hoje

Revelação da flora nacional

Novo volume da coleção ‘Espécies arbóreas brasileiras’ traz descrição detalhada de 60 espécies de importância econômica, silvicultural, botânica e ecológica. Obra destina-se tanto a profissionais de áreas afins quanto ao grande público.

Por: Sofia Pereira


‘Aspidosperma pyrifolium’ (pereiro). A espécie, que não tolera baixas temperaturas, ocorre principalmente nas regiões Nordeste e Centro-oeste, com presença marcante também em Minas Gerais. (foto: Paulo Ernani Ramalho Carvalho)


A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) lançou recentemente o quarto volume da coleção Espécies arbóreas brasileiras, do engenheiro florestal Paulo Ernani Ramalho Carvalho. Mais uma vez (os outros três volumes da coleção também foram escritos por Carvalho) o autor coloca à disposição do leitor seu profundo conhecimento da flora arbórea que compõe o ambiente florestal brasileiro.

Em levantamentos quantitativos sobre a vegetação brasileira, já foram catalogadas até o momento cerca de 7.800 espécies arbóreas. Um número que põe o Brasil no topo das nações do planeta com maior biodiversidade florestal
.

Capa do volume 4 da coleção 'Espécies arbóreas brasileiras'.

Com o objetivo de resgatar e democratizar o conhecimento de parte dessa riqueza, Carvalho se entregou ao empreendimento hercúleo de descrever detalhadamente 340 espécies arbóreas. Um desafio que exigiu nada menos que 40 anos de dedicação ao estudo da flora nacional.

“O eixo embrionário para a criação da coleção surgiu em 1980 com a elaboração, em máquina de escrever, das fichas silviculturais de A a Z das espécies”, lembra o autor. Cada livro da coleção descreve 60 árvores, à exceção do volume 1, que descreve 100. Outras 60 espécies já definidas vão compor o volume 5, cujo lançamento está previsto para o final de 2012.

Carvalho conta que, ao planejar a coleção, uma de suas preocupações foi estabelecer critérios para selecionar as espécies dos volumes. Cada um deveria abranger os seis biomas continentais e as 27 unidades da federação, além de apresentar conotação latino-americana, já que muitas espécies ocorrem também no México, América Central, Caribe e América do Sul.

“Decidi escolher, por volume, uma espécie de cada uma das principais famílias botânicas e de cada um dos grandes gêneros brasileiros”, explica Carvalho. As espécies foram escolhidas também por sua importância ecológica, econômica e silvicultural. Nesse último critério, o autor considerou árvores de crescimento rápido ou moderado, que produzissem madeira nobre e tivessem uso múltiplo.

O livro, ricamente ilustrado com fotos e mapas, é um importante suporte para instituições e programas de conservação e recuperação de áreas degradadas. Embora o público-alvo da coleção seja engenheiros florestais, agrônomos, biólogos, paisagistas e estudantes dessas áreas, ela se destina também a ambientalistas, ruralistas, empresários da indústria madeireira e ao grande público.

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Licania rigida' (oiticica), espécie endêmica do Nordeste brasileiro. A farta sombra dos oiticicais servia de abrigo temporário a viajantes e tropeiros. (foto: Paulo Ernani Ramalho Carvalho)
Informações atualizadas

As informações sobre as espécies apresentadas em cada livro da coleção foram obtidas a partir de extensa revisão bibliográfica, que incluiu a leitura e análise de aproximadamente 1.500 trabalhos por volume. As fotos são do autor e de vários colaboradores, uma vez que há espécies de todos os estados brasileiros.

A elaboração dos mapas das áreas de ocorrência natural das espécies só foi possível graças ao banco de dados construído durante a carreira do autor, que já se aposentou. Não é de espantar, portanto, que cada volume tenha levado em média três anos para ser concluído. Os mapas foram editados pelo setor de geoprocessamento da Embrapa.
O diferencial da coleção são os mapas de ocorrência natural e os dados climáticos e de crescimento

Carvalho conta que a reação dos leitores aos volumes anteriores (publicados em 2003, 2006 e 2008) foi de surpresa, devido às informações não tradicionais e atualizadas, como nomes científicos novos, nova classificação botânica e estados com ocorrências ainda não citadas.

Frente ao cenário atual do conhecimento na área, o diferencial da coleção, segundo o autor, são os mapas de ocorrência natural, os dados climáticos e de crescimento, além das informações inéditas incorporadas à descrição das espécies.

Quanto ao quarto volume especificamente, o principal destaque é a documentação da espécie Dalbergia cearensis, popularmente denominada violeta. Como o nome científico indica, foi originalmente assinalada no Ceará, e sua belíssima madeira é mundialmente conhecida por King Wood (madeira dos reis).

Corte transversal do tronco de 'Dalbergia cearensis' (violeta). A madeira da espécie, quando usada como lenha, libera aroma agradável, que lembra o cravo-da-índia. (foto: José Rabelo)

Das espécies descritas nesse volume, também merecem destaque, além dos conhecidos jacarandá e quaresmeira, o buriti-palito, o cedro-vermelho, a oiticica, a falsa-pelada, a farinha-seca e o pau-de-balsa (a madeira mais leve que se conhece).

O volume 5 da coleção Espécies arbóreas brasileiras, que já tem data de lançamento prevista, resultará de uma parceira entre a Embrapa Informação Tecnológica (Brasília-DF) e a Embrapa Florestas (Colombo-PR), também responsáveis pela edição dos demais volumes.

O autor adianta também que já dispõe de material para mais sete volumes (do 6 ao 12). Como cada um terá 60 espécies, teremos no futuro 420 novas espécies descritas na coleção. Estas, somadas às 340 já preparadas, perfazem um total de 760 espécies.

É um número pequeno, se considerarmos que já foram catalogadas no país até agora quase 8 mil espécies arbóreas. Mas, sem dúvida, é um ótimo começo.


Espécies arbóreas brasileiras (volume 4)
Paulo Ernani Ramalho Carvalho
Brasília/Colombo, 2010, Embrapa
Sofia Pereira
Revista Ciência Hoje

Duelos, segredos e matemática

Livro conta história de um episódio fundamental para o nascimento da matemática moderna e retrata uma das disputas mais virulentas da ciência renascentista.

Por: Marcelo Garcia


Duas das mentes mais afiadas do século 16 e uma questão: revelar ou não ao mundo o segredo da fórmula secreta da resolução das equações cúbicas? (imagens: Tartaglia e Cardano/ Wikimedia Commons)


Fórmulas misteriosas, duelos públicos, traições, genialidade, ambição – e matemática! Este é o instigante universo apresentado no livro A fórmula secreta - Tartaglia, Cardano e o duelo matemático que inflamou a Itália da Renascença, último lançamento da coleção 'Meio de cultura', da Editora Unicamp. A publicação resgata a história dos italianos Niccolò Tartaglia e Gerolamo Cardano e da fórmula revolucionária para resolução de equações do terceiro grau. Numa viagem que começa no Egito Antigo, passa pela Grécia, Mesopotâmia e Pérsia até chegar à Itália do século 16, a obra reconstitui um episódio polêmico que marca, para muitos, o início do período moderno da matemática.


Apesar de tratar basicamente de uma história sobre equações, não é necessário nenhum conhecimento prévio para seguir os passos dos protagonistas na Itália renascentista, retratada em vivas cores pelo autor, o físico experimental Fabio Toscano. No fim do século 15, a prosperidade comercial tornou comum na região a existência de escolas de matemática – uma área então bem diferente da atual: as escolas focavam a resolução de casos específicos e não a identificação de regras gerais, por exemplo, e como não existia um sistema de símbolos estabelecido, as equações eram escritas com palavras. 

Nesse contexto, acompanhamos a trajetória de Tartaglia. Pobre, autodidata e gago desde a infância – após receber um golpe de sabre no rosto –, ele faz sucesso na juventude em curiosos duelos de conhecimento com outros sábios, comuns na Itália do século 16 e decisivos para impulsionar ou destruir carreiras. 
Num duelo de conhecimentos, Tartaglia resolveu, sem revelar o método, equações cúbicas tidas como impossíveis, feito que chamou a atenção de Cardano

Em um desses duelos, Tartaglia derrota com facilidade o veneziano Antonio Maria Fior ao resolver – sem revelar seu método – problemas de um tipo julgado insolúvel: os “cubos e coisas iguais a número” – equações de terceiro grau do tipo x3 + ax = b. 

A notoriedade do feito vai aproximá-lo de outro brilhante intelectual de sua época, Gerolamo Cardano, obcecado pela ‘fórmula secreta’. Os dois constroem uma relação conturbada, marcada por amizade e hostilidade, que caminha rumo a um derradeiro e inevitável desafio. No processo, a matemática passará por avanços incríveis, com a descoberta de regras gerais para a resolução de equações do terceiro e do quarto graus, além de tangenciar a importante discussão sobre a necessidade de tornar públicos ou não conhecimentos científicos revolucionários. 

Nas páginas da história

A partir de muitos documentos históricos e variadas fontes bibliográficas, Toscano não só apresenta a polêmica entre os italianos, mas mergulha fundo na história da álgebra. A viagem nos leva a conhecer contribuições e conquistas de egípcios, gregos e árabes para a matemática (como a substituição dos algarismos romanos pelos indo-arábicos e a descoberta da solução para equações do segundo grau), além de explorar a estagnação de quase dois mil anos que se abateu sobre o campo – quebrada por Tartaglia e Cardano
.
Homem de muitos talentos, Tartaglia atuou em diversas áreas do conhecimento e foi, inclusive, precursor de um novo campo, a balística - apesar de nunca ter disparado um tiro. (foto: Flickr/ lndhslf72 – CC BY-NC-ND 2.0)

A minúcia com que Toscano reproduz os documentos históricos acrescenta um sabor especial à narrativa. Muito da relação entre Tartaglia e Cardano está registrado na profícua correspondência trocada pelos dois – em cartas privadas e comunicados públicos. A partir da transcrição desses documentos é possível vislumbrar suas inseguranças, seus ressentimentos e os subterfúgios que utilizam para atingir seus objetivos. No entanto, essa opção também representa o ponto fraco do livro, já que a reprodução exagerada e repetitiva dos originais acaba por tirar o ritmo da parte final da obra. 
A partir das muitas cartas trocadas entre os matemáticos é possível vislumbrar suas inseguranças, ressentimentos e os subterfúgios que utilizam para atingir seus objetivos 

Ainda assim, é preciso destacar a habilidade de Toscano em apresentar a matemática de forma simples. O autor consegue percorrer, sem grandes traumas, caminhos que vão da extração de raízes cúbicas a demonstrações geométricas mais complexas – sem dúvida uma tarefa das mais desafiadoras para qualquer iniciativa de divulgação científica ligada à matemática. No entanto, comete o pecado de não detalhar o valor e as consequências do feito de Tartaglia/Cardamo para a álgebra, que ficam apenas subentendidos. 

Em última análise, A fórmula secretaapresenta-se como uma ótima opção para conhecer um pouco mais sobre a história da matemática e acompanhar um dos debates científicos mais inflamados do século 16 no campo. Mais do que isso, é uma obra de fácil leitura e uma boa mostra de que é possível abordar temas como álgebra de forma interessante, inteligente e acessível ao grande público. 
A fórmula secreta - Tartaglia, Cardano e o duelo matemático que inflamou a Itália da Renascença
Fábio Toscano

Marcelo Garcia
Revista Ciência Hoje

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Fato ou Ficção? A água dos vasos sanitários e os tornados giram em direção oposta acima da linha do equador?

Qual o menor sistema controlado pela Força de Coriolis?

Robynne Boyd


O giro do tornado: O giro de um tornado é determinado pela colisão de ventos, o que significa que ele pode girar para qualquer lado, dependendo das circunstâncias
O clima nem sempre é previsível. Se fosse, as previsões diárias conseguiriam mapear furacões com antecedência, e sairíamos para passear sem o perigo de sermos pegos por uma pancada de chuva. No entanto, não é isso que acontece. Os sistemas climáticos são complexos assim, e os tornados não são exceção. Apesar de ser possível adivinhar para qual lado o tornado irá girar, como emqualquer previsão climática isso estará sujeito a erros.

É verdade que os tornados tendem a girar no sentido anti-horário no Hemisfério Norte e no sentido horário no Hemisfério Sul. Entretanto, de acordo com Richard Rotunno, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos Estados Unidos em Boulder, Colorado, o contrário também já foi verificado. Existem aparições ocasionais de tornados com rotação no sentido horário e também anti-horário na mesma tempestade. Esses desvios enfraquecem a idéia comum de que o giro dos tornados é regido pela Força de Coriolis.

Para esclarecer o assunto, Rotunno explica que a Força de Coriolis possui uma influência significante na direção da rotação dos maiores sistemas circulatórios dos mares e oceanos da Terra, como por exemplo a Corrente do Golfo, o fluxo a jato, os ventos alíseos e ciclones. A rotação da Terra em torno de seu eixo causa esse efeito, fazendo os ventos do Hemisfério Norte soprarem para a direita e os do Hemisfério Sul, para a esquerda. É por isso também que uma rota aérea entre Anchorage, no Alasca, e Miami, na Flórida, tem que considerar a rotação da Terra no sentindo anti-horário (como observado no Pólo Norte), até pousar em seu destino, evitando ir parar no Golfo do México.

No entanto, a Força de Coriolis não é onipotente, obrigando que todos os tipos de rotação sejam no sentido anti-horário ao Norte do Equador e no sentido horário ao Sul. Mesmo após várias pessoas terem assistido a vídeos de descargas na Austrália e nos Estados Unidos girando para direções opostas, esses experimentos são baseados em sorte e talvez – e o que não é surpresa alguma – no próprio desenho dos vasos sanitários. Algumas pessoas brincam que a Força de Coriolis determina até mesmo para que lado os cabelos se enrolam.
Apesar de uma grande quantidade de informações errôneas, os vasos sanitários – e mesmo os tornados – são muito pequenos para serem regidos pela Força de Coriolis. Essa força só começaria a agir sobre o giro das massas de ar se elas fossem pelo menos três vezes maiores que os sistemas de tempestades de super-células, que geralmente geram os tornados.

"Os tornados são indiretamente influenciados pela Força de Coriolis”, afirma o meteorologista Harold Brooks do National Oceanic & Atmospheric Administration\\`s National Severe Storms Laboratory, em Norman, Oklahoma. A maioria dos tornados aparece nos Estados Unidos em uma região com grandes planícies conhecida como “beco dos tornados”, mas eles podem aparecer em qualquer lugar, inclusive na região sul do Brasil e na parte nordeste da Argentina, ou em Bangladesh. Essas violentas colunas de ar se originam de tempestades de trovões conhecidas como super-células. Nos Estados Unidos, elas se formam quando o ar polar mais seco proveniente do Canadá se encontra com a massa de ar tropical do Golfo do México, fazendo com que o ar aquecido se eleve rapidamente.

O processo da elevação natural da massa de ar quente gera uma força para cima. “Se existem ventos laterais com força suficiente (ventos com mais velocidade e altura) esse movimento de elevação se transformará em rotação”, explica Brooks. “Tornados giram quase sempre na mesma direção da tempestade que eles estão associados”. Portanto, se ventos quentes sopram para o norte a partir do Equador e se encontram com os ventos frios vindos do oeste, o tornado irá girar no sentido anti-horário. Já se o vento equatorial quente soprar em direção ao sul e se chocar com correntes de grande altitude, o tornado irá girar no sentido horário.

Isso acontece porque, em ambos os hemisférios, ventos de alta intensidade sopram do oeste devido ao movimento de rotação planetária. Esses ventos são a participação sutil da Força Coriolis no torque de um tornado.

Apesar de parecer fácil entender a pouca influência da Força de Coriolis sobre a direção do giro do tornado, o mesmo não vale para o funcionamento dos tornados. E predizer exatamente quando e onde os tornados vão aparecer e para que lado eles vão girar é mais difícil ainda. A incerteza ainda é a única certeza quando se trata de previsões meteorológicas.
Scientific American Brasil

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Produtos de higiene contaminam o ar de Chicago

Contaminação do ar por compostos químicos de desodorantes, cremes e loções beiram níveis alarmantes

Flickr/Steve G
COMPOSTOS AÉREOS DE CHICAGO: O ar em Chicago tem elevados níveis desiloxanos cíclicos, compostos que podem estar presentes também no ambiente natural da maior fonte de água doce do mundo – os Grandes Lagos.

Por Brian Bienkowski e Environmental Health News

À beira de uma revisão regulatória federal, compostos químicos encontrados em desodorantes, loções e condicionadores de cabelos estão aparecendo no ar de Chicago em níveis que cientistas consideram alarmantes.

Os compostos voláteis – siloxanos cíclicos – estão viajando para locais tão distantes quanto o Ártico, e podem ser tóxicos para a vida aquática.

“Essas substâncias estão simplesmente em todo lugar”, declara Keri Hornbuckle, professora de engenharia da University of Iowa e coordenadora de novo estudo.

As concentrações eram 10 vezes maiores no ar de Chicago que no ar de West Branch, Iowa, e quatro vezes maior que em Cedar Rapids, Iowa.

Hornbuckle explicou que as descobertas são preocupantes porque os compostos são onipresentes e foram detectados em níveis muito mais altos que outros contaminantes ambientes. “Essas são concentrações altas, que estão me preocupando de verdade”, admitiu ela.

Mas não se sabe se inalar esses compostos traz riscos. Não existem estudos medindo a exposição das pessoas ou investigando possíveis riscos de saúde.

No ar de Chicago o composto predominante, conhecido como D5, estava presente em níveis três vezes maiores que os normais de bifenil policlorado (PCB). PCBs são substâncias químicas persistentes, banidos na década de 70. O D5 é mais comumente usado em sabonetes, loções, xampus e condicionadores. 

É provável que os compostos também estejam presentes em altas concentrações no ar de muitas cidades, mas ninguém os pesquisou outros lugares ainda. Os Estados Unidos produzem ou importam entre 91 milhões e 454 milhões de quilos de siloxanos cíclicos todos os anos, de acordo com estimativas da Agência de Proteção Ambiental do país.

Muitas pessoas esfregam esses compostos todos os dias em seus corpos. Eles estão presentes em quase metade dos itens de cuidados pessoais, com até dois terços da massa do produto em alguns casos, de acordo com um estudo de 2008 realizado pelo Departamento de Saúde Pública de Nova York e um estudo de 2009 da Health Canada. Eles são usados nesses produtos porque são inodoros, incolores e suaves ao tato.

O novo estudo não rastreou a origem das substâncias químicas, mas sugere que produtos de cuidados pessoais são uma grande fonte já que o D5 era o composto dominante tanto em amostras de ar doméstico quanto em amostras externas.

Concentrações domésticas de ar nos laboratórios e escritórios da University of Iowa eram de 30 a 75 vezes maiores que as amostras externas de ar da Cedar Rapids e West Branch, e o D5 compunha 97% da massa de amostras internas. 

“É com base na população”, explica Rachel Yucuis, estudante de mestrado da University of Iowa e principal autora do novo estudo. “E em lugares fechados você tem tanto os produtos pessoais no meio quanto os que as pessoas estão usando, em um espaço concentrado”.

À noite, níveis de siloxanos cíclicos eram cerca de 2,7 vezes maiores que durante o dia, o que provavelmente se deve a mudanças na atmosfera ao anoitecer, pondera Yucuis.

De acordo com a EPA, o D4 – usado em polidores, detergentes, selantes, adesivos e plásticos – é tóxico para a vida selvagem. Estudos laboratoriais anteriores descobriram que o composto era tóxico para certas espécies – pequenas trutas arco-íris e pulgas d’água – em concentrações que são esperadas no ambiente.

Além disso, o D4 provoca tumores, problemas reprodutivos, alterações no tamanho de órgãos e age como um estrogênio fraco em estudos com animais de laboratório. O D5 provocou mudanças nos sistemas nervoso, hepático e imune de animais de laboratório.

O D4 e o D5 não são atualmente regulados em qualquer local do mundo. Mas a EPA anunciou no ano passado que avaliaria se o D4 deve ser regulado sob o Toxic Substances and Control Act. No entanto, a agência está menos preocupada com concentrações no ar externo do que com os riscos a criaturas aquáticas, explicou um porta-voz da EPA por email.

O potencial de acúmulo e toxicidade de siloxanos cíclicos são debatidos por cientistas e representantes da indústria.

Tanto o D4 quanto o D5 são “seguros para a saúde humana e o ambiente quando usados da maneira planejada”, respondeu por email Karluss Thomas, diretor sênior do Silicones Environmental, Health and Safety Center do Conselho Americano de Química.

Ele declarou que níveis mais altos dos compostos em locais como Chicago não são motivo de preocupação porque não há evidência de que afetem humanos.

Mas um painel científico da Comissão Europeia que revisou dados existentes sobre o D4 concluiu em 2006 que estava “incapaz de avaliar os riscos a consumidores quando o D4 é usado em cosméticos”.

“Apesar do tamanho do dossiê enviado pela indústria para avaliação, é lamentável que o documento em questão não tivesse informações/dados significativos sobre a real exposição de consumidores ao D4”, escreveu o painel.

Na última década, de acordo com estudos sobre siloxanos cíclicos, o D5 substituiu o D4 em cosméticos.

Oficiais de saúde da Califórnia expressaram preocupação com esse crescimento no uso de D5, declarando em 2007 que “[o D5] tem potenciais impactos na saúde pública” e “foi medido em várias espécies aquáticas em concentrações de partes por milhão, e parece ter uma longa meia-vida em humanos. Portanto, a persistência do D5 no ambiente e em tecidos humanos e animais é uma preocupação”.

Como os químicos se acumulam em criaturas aquáticas não é bem compreendido.

Thomas citou estudos de vida selvagem em Minnesota e na Europa mostrando que animais no topo das cadeias alimentares tinham menores concentrações que animais no final.

Outra pesquisa, porém, mostra que os compostos estavam se acumulando nas cadeias alimentares do Lago Mjosa da Noruega e no Estuário Humber da Inglaterra, de acordo com um trabalho de Michael McLachlan e colegas da Universidade de Estocolmo.

McLachlan explicou que os compostos têm uma estrutura estranha que torna difícil compreendê-los, mas declarou que a maioria dos cientistas afirma que estão se acumulando. “A maioria dos químicos padrão acaba em sedimento”, observou ele. “No entanto, com siloxanos cíclicos, uma porção muito menor acaba em sedimento e uma porção muito maior se acumula nos peixes”.

Com níveis elevados no ar de Chicago, é possível que a vida selvagem na maior fonte de água doce do mundo – os Grandes Lagos – fique contaminada com eles, o que ainda não foi analisado, lembrou Hornbuckle. Laboratórios ao longo da região dos Grandes Lagos estão avaliando maneiras de medir os compostos de acordo com um estudo realizado em 2010 pela Environment Canada sobre contaminantes emergentes nos Grandes Lagos

Siloxanos cíclicos viajam o mundo. Leva cerca de duas semanas para que o D4 e o D5 se degradem na atmosfera. “O ar pode circundar o globo inteiro em uma semana”, explicou McLachlan.

Em 2011, pesquisadores canadenses amostraram o ar de 20 locais do mundo todo – incluindo cinco no Ártico – e encontraram os compostos em todos os lugares. De acordo com McLachlan, no inverno, quando há menos luz do sol para destruir as substâncias químicas, o Ártico tem um pico. Pesquisadores também descobriram que usinas de tratamento de água e esgoto estão altamente contaminadas com eles.

“Eles [os siloxanos cíclicos] são muito diferentes se comparados a outros contaminantes químicos do ambiente”, explicou McLachlan. “Estamos apenas começando a entender como eles se comportam”.

Este artigo foi originalmente publicado em Environmental Health News, uma fonte de notícias publicada pela Environmental Health Sciences, uma empresa de mídia sem fins lucrativos.
Scientific American Brasil

Macacos rejeitam pessoas más

Capuchinhos tendem a evitar humanos que recusam ajuda

Flickr/Fulla T

Depois de observar humanos interagindo, macacos capuchinhos tendiam a recusar pessoas que agiam de maneira egoísta. 

Por Helen Shen e revista Nature


Quando é que um macaco recusa uma banana? Aparentemente, quando ela é oferecida por uma pessoa egoísta.

Quando recebem a opção de aceitar guloseimas de pessoas prestativas, neutras, ou egoístas, macacos capuchinhos (Cebus apella) tendem a evitar indivíduos que recusam ajudar outros, de acordo com um estudo publicado em 5 de março na Nature Communications.

“Humanos podem construir uma impressão a respeito de alguém simplesmente com base no que veem”, explica o autor do estudo, James Anderson, psicólogo comparativo da University of Stirling, no Reino Unido. Os resultados dos capuchinhos sugerem que essa habilidade “provavelmente se estende a outras espécies”, observa ele.

Anderson decidiu estudar capuchinhos devido a seus instintos altamente sociais e cooperativos. Macacos do estudo observavam enquanto uma pessoa concordava ou se recusava a ajudar outra pessoa a abrir um pote contendo um brinquedo. Depois disso, as duas pessoas ofereciam comida ao animal. O macaco só podia aceitar comida de uma delas.

Quando a ajuda era concedida, os capuchinhos praticamente não mostravam preferência entre a pessoa que pedia ajuda e a pessoa que ajudava. Mas quando a ajuda era recusada, os sete macacos tendiam a aceitar comida da pessoa egoísta com menos frequência.

Escolhendo parceiros

Para tentar entender as motivações dos macacos, Anderson e sua equipe testaram cenários diferentes. Os animais não apresentavam preconceito contra pessoas que não conseguiram ajudar porque estavam ocupadas demais tentando abrir seu próprio pote. Mas eles tendiam a evitar pessoas que podiam ajudar, mas que não o faziam.

“A recusa explícita de ajudar é um sinal de que você é perigoso, negativo”, explica Kiley Hamlim, psicóloga do desenvolvimento da University of British Columbia, em Vancouver, no Canadá. Tendências semelhantes foram apresentadas por chimpanzés e por humanos com três meses de idade. Hamlin acredita que o estudo dos capuchinhos sugere que a capacidade de identificar parceiros sociais indesejáveis tem raízes evolutivas ancestrais.

Sarah Brosnan, etóloga da Georgia State University em Atlanta, declara que esse tipo de estudo normalmente é realizado com grandes primatas, e que “de fato é muito interessante ver isso em um macaco”. As descobertas sugerem que a inferência social pode ocorrer em animais com diferentes tamanhos de cérebro e habilidade cognitiva, explica ela.

Mas Jennifer Vonk, psicóloga comparativa da Oakland University em Rochester, Michigan, e autora do estudo com chimpanzés, alerta contra suposições de que os macacos compreendam muito sobre o caráter humano.

“Você realmente não sabe o que eles estão inferindo”, aponta ela. Em condições em que as duas pessoas recebiam potes, as tendências contra pessoas egoístas eram mais fracas, explica ela, então são necessários testes mais detalhados para eliminar possíveis preferências por pessoas que detenham objetos de interesse, como brinquedos.

Mesmo assim, Vonk diz estar interessada em descobrir se outros animais – cães, por exemplo – e até mesmo espécies não-sociais, como ursos, guiam seu comportamento ao observar interações sociais.

Este artigo foi reproduzido com permissão da revista Nature. O artigo foi publicado pela primeira vez em 5 de março de 2013.
Scientific American Brasil

Guerra não é herança evolutiva dos humanos

Pesquisadores concluem que a prática do confronto não é inata nem inevitável

Divulgação
A cena do “macaco assassino” no filme de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), não tem base em fatos.

John Horgan

uma das mais insidiosas ideias modernas sustenta que a guerra é inata, uma adaptação criada em nossos ancestrais pela seleção natural. Essa hipótese – vamos chamá-la de “Teoria da Guerra com Raízes Profundas” – já foi promovida por intelectuais respeitáveis como Steven Pinker, Edward Wilson, Jared Diamond, Richard Wrangham, Francis Fukuyama e David Brooks.

A Teoria das Raízes Profundas aborda não apenas a agressão humana violenta em geral, mas uma manifestação específica dela, envolvendo ataques de um grupo contra o outro.

Os adeptos da teoria frequentemente argumentam que – por mais belicosos que sejamos atualmente – nós éramos ainda mais belicosos antes do advento da civilização.

Pinker alega em seu bestseller, Better Angels of Our Nature (Os anjos bons de nossa Natureza, em tradução livre), que “ataques e disputas crônicas caracterizam a vida em um estado natural” . Em The Social Conquest of the Earth (A Conquista Social da Terra), Wilson chama a guerra de “maldição hereditária da humanidade”.

A Teoria das Raízes Profundas se tornou extraordinariamente popular, especialmente considerando as evidências para ela são extraordinariamente fracas.

Um estudo publicado em 18 de julho na Science, “Lethal Aggresion in Mobile Forager Bandas and Implications for the Origins of War”, fornece contra-evidências para a Teoria das Raízes Profundas.

Os autores do estudo, os antropólogos Douglas Fry e Patrik Soderberg da Universidade Abo Akademi, na Finlândia, declaram que seus descobertas “contradizem afirmações recentes de que coletores nômades se engajavam regularmente em guerras de coalisão contra outros grupos”.

Fry e Soderberg se concentram em bandos de coletores com grande mobilidade, também chamados de caçadores-coletores nômades, porque se acredita que seu comportamento forneça uma janela para a evolução humana.

Nossos ancestrais viveram como coletores nômades desde a emergência do gênero Homo há cerca de dois milhões de anos até aproximadamente 10 mil anos atrás, quando humanos começaram a plantar, domesticar animais e se estabelecer em sociedades hierárquicas mais complexas.

Fry e Soderberg examinaram dados de violência mortal em 21 sociedades coletoras observadas por etnógrafos.

As sociedades incluem os Aranda e Tiwi, da Austrália, os Kaska, Kitlinermiut, e Montagnais da América do Norte; os Botocudo da América do Sul, os Kung, Haza e Mbuti da África; e os Vedda e Andamanese do Sul do Ásia.

Fry e Soderberg regisram um total de 148 “eventos de agressão letal” nessas sociedades.

Os pesquisadores distinguem entre a violência envolvendo pessoas que pertencem ao mesmo grupo, frequentemente aparentados, e a violência entre pessoas em grupos diferentes. Eles também distinguem entre a violência envolvendo apenas um perpetrador e vítima e a violência envolvendo pelo menos dois assassinos e duas vítimas.

Essas distinções são cruciais, porque a guerra, por definição, é uma atividade em grupo.

Os defensores da teoria "raízes profundas" frequentemente consideram todas as formas de violência mortal, não apenas a violência em grupo, como evidência para sua teoria. (Eles frequentemente também contabilizam a violência em sociedades que praticam a horticultura, como os Ianomami da Amazônia, mesmo que a horticultura seja uma invenção humana relativamente recente.)

Das 21 sociedades examinadas por Fry e Soderberg, em três não encontraram registro de morte de nenhum tipo, e em 10 não havia mortes provocadas por mais de um perpetrador.

Em apenas seis sociedades os etnógrafos registram mortes que envolveram dois ou mais perpetradores e duas ou mais vítimas. Uma única sociedade, no entanto, os Tiwi da Austrália, foi responsável por quase todas essas mortes em grupo.

Alguns outros pontos de interesse: 96% dos assassinos eram do sexo masculino.

Isso não é surpresa. Mas alguns leitores podem se surprender com o fato de que apenas duas de 148 mortes se originaram de luta por “recursos”, como áreas de caça, fontes de água ou árvores de frutos.

Nove episódios de agressão letal envolveram maridos matando esposas; três envolveram a “execução” de um indivíduo por outros membros de seu grupo; sete envolveram a execução de “estranhos”, como colonizadores ou missionários.

A maioria das mortes veio do que Fry e Soderberg categorizam como “disputas pessoais diversas”, envolvendo ciúmes, roubos, insultos e assim por diante. A causa mais específica de violência mortal – envolvendo perpetradores únicos ou múltiplos – foi a vingança de um ataque anterior.

Esses dados corroboram a teoria da guerra proposta por Margaret Mead em 1940.

Observando que algumas das sociedades coletoras simples, como os aborígenes australianos, podem ser belicosas, Mead rejeitou a ideia de que a guerra era uma consequência da civilização. Mas ela também descartou a noção de que a guerra fosse inata – uma “necessidade biológica”, como ela chamava – simplesmente ao apontar (como fazem Fry e Soderberg) que algumas sociedades não se engajam em violência entre grupos.

Mead (novamente como Fry e Soderberg) não encontrou evidências para o que poderia ser chamado de teoria malthusiana da guerra, que sustenta que a guerra é a consequência inevitável da competição por recursos.

Em vez disso, Mead propôs que a guerra é uma “invenção” cultural – no linguajar moderno, um meme, que pode surgir em qualquer sociedade, da mais simples até a mais complexa.

Uma vez que surge, a guerra frequentemente se auto-perpetua, com ataques de um grupo provocando retaliações e ataques preventivos de outros.

O meme da guerra também transforma sociedades, fazendo com que se tornem militarizadas e tornem a guerra mais provável.

Os Tiwi parecem ser uma sociedade que abraçou a guerra como modo de vida. Assim como os Estados Unidos da América.

A Teoria das Raízes profundas é insidiosa porque leva muitas pessoas a sucumbir a noção fatalista de que a guerra é inevitável. Errado. A guerra não é nem inata, e nem inevitável.
Scientific American Brasil